sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Pescadores e pescadoras denunciam violação da convenção 169 na OIT

Cerca de 200 pescadores, pescadoras, quilombolas e índios fizeram uma caminhada de 4km entre o Ministério da Agricultura (MAPA) e a sede da Organização Internacional do Trabalho (OIT), encerrando as mobilizações do dia de ontem (24/11). 

O ato teve como objetivo protocolar o Informe de Violação da Convenção 169 da OIT, em relação aos direitos dos pescadores e pescadoras. 


A convenção internacional 169, da qual o Brasil é signatário, estabelece a necessidade de consulta prévia às comunidades e povos tradicionais sobre todas as medidas suscetíveis de afetá-los. Com a publicação dos decretos 8424 e 8425 emitidos pelo governo federal, em 2015, foi criada a categoria do “trabalhador e trabalhadora de apoio à pesca artesanal”, desconsiderando o regime de economia familiar e tradicional da pesca artesanal. Ao determinar qual atividade da cadeia produtiva terá acesso ao Registro “Prévio” da atividade pesqueira, o Estado violou o direito de autodefinição das comunidades tradicionais pesqueiras, o que motivou o documento de denúncia protocolado pelo Movimento dos Pescadores e Pescadoras artesanais e pelo Conselho Pastoral dos Pescadores na OIT.

O informe pede que a OIT recomende ao Estado Brasileiro a regularização da situação cadastral/administrativa dos pescadores e pescadoras artesanais do país, pede também que o Estado Brasileiro crie um procedimento específico com o objetivo de regulamentar a Consulta Prévia aos povos e comunidades tradicionais, com ampla discussão da metodologia com representantes das comunidades tradicionais. Por último, o informe pede que a OIT recomende a suspensão dos decretos 8424 e 8425.
Essa é a primeira vez que pescadores e pescadoras do Brasil protocolam um informe de violação da convenção 169 na Organização Internacional do Trabalho. O documento será encaminhado para Genebra, na Suíça, onde será analisado pelo Comitê de Peritos em Aplicação de Convenções e Recomendações da OIT. Após análise, o Comitê deve emitir parecer sobre a denúncia feita no documento.

Pescadores e Pescadoras fazem ato em frente ao MAPA


Cerca de 500 representantes de pescadores e pescadoras artesanais, índios e quilombolas estiveram no dia de ontem (25/11) na sede do Ministério da Agricultura (MAPA), em Brasília e foram impedidos de entrar no prédio que tinha na porta a presença de policiais do batalhão de choque da Polícia Militar.





Após as negociações, uma comissão formada por 12 representantes dos povos e comunidades tradicionais foi recebida pelo Secretário da Pesca e pelo Secretário adjunto do Secretário Executivo do MAPA.

O Movimento dos Pescadores e Pescadoras artesanais reivindica ao ministério a revisão dos cancelamentos e suspensões dos Registros Gerais de Pesca (RGP), que vem acontecendo desde 2014 e que somados aos cancelamentos mais recentes já atingem quase 600 mil pescadores e pescadoras em todo o Brasil. O RGP é um documento obrigatório para o exercício da pesca e precisa ser renovado anualmente. Os cancelamentos têm acontecido de maneira arbitrária e tem levado à criminalização de vários pescadores e pescadoras no exercício da profissão. A não renovação dos RGPs, que se agravou desde a extinção do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), também tem dificultado o acesso ao seguro-defeso, benefício recebido pelos pescadores quando a pesca é proibida para garantir a reprodução dos peixes.

Outro ponto da pauta foi a suspensão dos decretos 8424 e 8425, emitidos pelo governo federal no ano de 2015. Os decretos ferem a identidade dos pescadores e pescadoras ao criarem a categoria de “trabalhador de apoio a pesca”, que considera pescadores apenas aqueles que trabalham diretamente na captura do peixe, ignorando assim o regime de economia familiar e tradicional da pesca artesanal. Essa mudança afeta principalmente as mulheres pescadoras, que trabalham no beneficiamento do pescado e na confecção dos apetrechos de pesca. Representantes dos índios e quilombolas, que também são pescadores, apontaram o quanto essas medidas também têm afetado eles. Em relação aos RGPs cancelados e suspensos, os representantes do Ministério da Agricultura afirmaram que "não tinham poder" para revogar estas suspensões.

Os povos e comunidades tradicionais exigiram, então, uma reunião ampliada, com todos os órgãos responsáveis pela emissão do seguro-defeso - INSS, Marinha, Ministério do Meio Ambiente (MMA), Casa Civil e Ministério do Planejamento – para evitar a "terceirização de responsabilidades" e resolverem a questão dos recorrentes indeferimentos dos benefícios que têm prejudicado vários trabalhadores da pesca em todo o Brasil.

“Sentimos que eles perceberam que não estamos para brincadeira, que vamos continuar resistindo, vamos continuar lutando. Também pontuamos que não estamos conversando com governo, é uma incidência com o Estado brasileiro, não importa qual governo fez isso ou aquilo. Vamos continuar nos fortalecendo, fortalecendo a nossa gente, e voltamos no próximo ano, com mais povo e muita vontade de fazer a luta”, afirmou Elionice Sacramento, do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais. Na reunião, o MPP obteve também a garantia de que os decretos 8424 e 8425, que estão passando por um processo de revisão, não serão republicados sem que os pescadores e pescadoras sejam consultados.

Manifestação vigiada

 A entrada dos manifestantes na cidade de Brasília, no dia de ontem (24/11), teve a presença de uma companhia constante e pouco bem-vinda: a polícia. Ainda na entrada da cidade, na BR 040, os ônibus e os manifestantes foram revistados.

Após entrarem em Brasília, a polícia escoltou os manifestantes no ato que fizeram na Esplanada dos Ministérios e posteriormente na caminhada até a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Os índios foram impedidos de carregarem seus arcos e flechas.

Essa não foi a primeira ação de truculência do Estado brasileiro contra os manifestantes. No dia anterior (23/11), quando os povos e comunidades tradicionais tentaram entrar no Anexo II da Câmara dos Deputados, foram recebidos com spray de pimenta pela Polícia Legislativa e impedidos de assistirem à CPI da FUNAI e do INCRA que estava acontecendo no momento.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Grito da Pesca Artesanal

No dia 22 de novembro, dia do Levante da Pesca Artesanal, pescadores, pescadoras, indios, quilombolas e quebradeiras de coco ocuparam o Palácio do Planalto e se manifestaram contra uma série de leis que prejudicam os povos e comunidades tradicionais.
Vejam a nota na íntegra!



Nós povos indígenas originários, comunidades tradicionais pesqueiras, comunidades quilombolas, e quebradeiras de coco babaçu,  estamos em mobilização nacional denunciando  o programa neo-liberal dos governos, com apoio e aval do poder legislativo e judiciário e  nos colocamos contra todo e qualquer retrocesso nos nossos direitos já conquistados, com muita luta e sangue derramado.

Nesse sentido denunciamos:

Marco temporal: presente nas 19 condicionantes do caso da Terra indígena Raposa Serra do Sol, vem sendo usado para inviabilizar a demarcação e revisão de limites de territórios indígenas, violando a constituição  eos tratados internacionais, ao mesmo tempo que nega a violência sofrida pelos povos e comunidades tradicionais no processo de esbulho de suas terras. 
A tramitação da PEC 215, da PEC 65, PL 1610, PL Terras estrangeiras,  por entender que são mecanismos criados para expropriação dos territórios tradicionais para implantação de grandes projetos do agro – hidronegocio, mineração, produção de energia e monocultivos;
A PEC 55 representa a intensificação do processo de sucateamento de políticas públicas para efetivação de direitos fundamentais. 
A atuação do poder judiciário na concessão de medidas liminares de reintegração de posse nas áreas de retomada dentro dos territórios tradicionais;
A criminalização de lideranças de comunidades indígenas, pescadores e quilombolas por parte do ICMBio nas áreas de sobreposição de unidades de conservação de proteção integral sobre territórios tradicionais.

Exigimos do Estado Brasileiro:

Aceleração dos processos de demarcação, desintrusão de terras indígenas e quilombolas;
Reconhecimento e regularização dos territórios tradicionais pesqueiros;
Liberação e aumento de recursos para  órgãos como INCRA, FUNAI, SPU  e outros para execução  de processos demarcatórios de territórios de povos e comunidades tradicionais;
Autonomia e protagonismo das comunidades nos processos de gestão e fiscalização dos territórios e das áreas de preservação;
Revogação do Decreto 8424 e 8424 da por violarem os direitos das pescadoras e pescadores artesanais;
Retorno do Ministério do Desenvolvimento Agrário para o atendimento das  demandas das comunidades tradicionais e da agricultura familiar.

Brasília, Novembro de 2016.



Nota Geral Mobilização - 22 de novembro de 2016 by Movimento dos Pescadores e Pescadoras on Scribd

domingo, 20 de novembro de 2016

A Resistencia Negra que acontece nos Territórios Tradicionais Pesqueiros

20 de Novembro, data histórica que marca o dia em que o herói Zumbi dos Palmares foi morto pelas forças colonialistas, líder do primeiro estado livre de todas as Américas, como afirmava Lélia Gonzalez. É importante fazer essas referências que não encontraremos nos livros de história e nem na bibliografia colonial. A construção da consciência negra passa, necessariamente, pela desconstrução da herança colonial racista, que tem afetado cotidianamente os corpos negros e seus territórios tradicionais. 

A luta contra o racismo e genocídio do povo negro está presente no território tradicional pesqueiro, pois a pesca artesanal é feita pelas mãos de mulheres e homens negros que têm se dedicado a essa atividade enquanto herança dos seus ancestrais. A territorialidade pesqueira é espaço de lembranças e de muitas lutas que têm referências em Luiza Mahim, no NÃO do Dragão do Mar, na força de João Candido na Revolta da Chibata, na revolta Praieira, entre tantas lutas do passado e presente que não são contadas nos livros, nas rodas e nem na tela clara da TV, pois esses processos de invisibilização são parte das medidas de negação da existência e presença do corpo negro. A leitura deve ser feita radicalmente, faz-se necessário a inquietação dos lugares e papeis que têm sido reservados para a comunidade negra, e dessa reserva, que a nossa consciência negra tem buscado negar e denunciar.

A rebeldia e consciência negra correm nas veias de pescadoras e pescadores artesanais que estão constituindo processos autônomos de retomada dos seus territórios tradicionalmente ocupados, nas autodemarcações de terra e água, na ocupação de prédios públicos para denunciar o racismo institucional. As violências são bem diversas e a disponibilidade de afirmação da identidade tem mobilizado essas comunidades.

Os processos de auto-demarcação de terra e das águas, empreendidos pelas pescadoras e pescadores, têm ferido a lógica do estado paternalista, caridoso, que batiza e presenteia os seus, propondo outra territorialidade não colonial, afinal é preciso reparação histórica. É entre o mar, as lagoas e rios que se vem construindo outra cartografia do território pesqueiro. A Campanha Nacional de Regularização Fundiária é uma dessas medidas de possibilidade de escrita comunitária. As comunidades pesqueiras são também um dos espaços negros de encontro e reencontro com toda uma ancestralidade e modo de ser, em permanente diáspora. Resistir no território tem significado existir na diáspora negra. 

As comunidades pesqueiras têm sido vitimas do terrorismo de estado e da politica neocolonial de desenvolvimento, representado na instalação de indústrias petrolíferas, na transposição do Rio São Francisco, nos projetos improdutivos do agronegócio, nos complexos industriais, na mineração, na construção de hidrelétricas e termelétricas, na privatização e mercantilização dos territórios tradicionais, o visível projeto de “alguém precisa ser afastado” é vivenciado no território pesqueiro na instalação e implementação de projetos dessa natureza, que têm seus gabinetes assentados na supremacia branca, na herança escravocrata e colonial, nos traços do Racismo Ambiental das diversas faces da injustiça ambiental.

O território pesqueiro não está deslocado das práticas perversas coloniais e suas heranças de destruição, genocídio, aprisionamentos, criminalização, espancamento, humilhação e desconfiguração intencional das atividades tradicionais. Essas são algumas das muitas formas de violência que o Estado e as diversas iniciativas privadas têm aplicado nos territórios tradicionais. É necessário trazer presente o não dito, o que não se fala, o vivenciado, os olhos em lágrimas de mulheres negras que têm enterrado seus filhos que são vítimas do projeto genocida que vem na bagagem da instalação de empreendimentos nas comunidades pesqueiras. É preciso falar ainda de várias comunidades que vivenciam novamente o esquecimento forçado, a perca da memória coletiva, que é representada quando antigos terreiros de candomblé são impactados por grandes projetos. Geralmente onde existe um terreiro, se passa uma estrada por cima. Acreditamos que as linhas construídas são intencionais e direcionadas.

É em meio a tantos processos contínuos de violências, que precisamos fazer memória de Luiza Mahim, de Zumbi dos Palmares, de Negra Zeferina, de tantas e muitas mulheres pescadoras, que no segredo dos mangues vão construindo as estratégias de luta e resistência. É na calmaria e na agitação das águas que os passos rebeldes de mulheres e homens vão se forjando, é dessa territorialidade não falada que renasce a esperança, as danças e tambores, que todos os dias são forçados a silenciar, mas que os olhos firmes e a voz forte dos ancestrais fazem com que os remos e canoas continuem firmes e presentes.

As comunidades tradicionais pesqueiras são constituídas de ancestralidade, pertencimento e resistência, sendo dessa forma a continuidade do encantamento e segredo, que só cabe às mulheres e homens que decifram a linguagem das águas. Território de expressão, vivências que se manifestam no jeito específico da pesca artesanal, no cuidado, como no catar e cantar no mangue, na construção das canoas, jangadas e barcos, que de cores e nomes, são acolhidos cotidianamente nos braços da grande mãe Yemanjá, a ligação entre essa diáspora vivenciada no silencio do peito e das mãos que carregam saberes transmitidos na oralidade.    

Temos aprendido com Lélia Gonzalez a falar o nome e sobrenome. É com a cabeça erguida e o bico na diagonal que os enfrentamentos precisam ser feitos, como gosta de provocar Vilma Reis. É da sensibilidade e do olhar de Alex Ratts que construímos outras linguagens possíveis. As referências são necessárias para alimentar a luta do dia a dia. Território pesqueiro que tem uma irmã Carolina Maria de Jesus, que traz vivências parecidas e próximas a de tantas pescadoras artesanais. É da voz quilombista de Abdias Nascimento que reforçamos a importância das práticas comunitárias que acontecem no território. É preciso recuperar, para não se perder na perversidade que é a individualidade colonial, a voz firme e o coração sensível de Luiza Barros, que precisamos para a luta cotidiana. Beatriz Nascimento volta hoje, à nós, e chama para o reencontro com os nossos. É da voz de Dom Helder Câmara ao chamar Mariamar, que precisamos reescrever as nossas linhas, nossas cores, nossos terreiros e comunidades pesqueiras com os nossos que estão espalhados na diáspora negra.

Francisco Nonato do Nascimento  
Militante do Movimento Negro                                                                                                          
Conselho Pastoral dos Pescadores – Regional Ceará                                                                                Graduando em Ciências Sociais UECE            

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Audiência Pública reivindica a aprovação da Política Nacional de Economia Solidária

Representantes do CPP e do MPP participaram na última quarta-feira (28/09) de Audiência Pública sobre a Política de Economia Solidária no anexo 3 da Câmara dos Deputados, em Brasília. A audiência foi pedida pelo Deputado Angelim Vasconcelos do PT/AC, que preside a Frente Parlamentar Federal em Defesa da Economia Solidária e Economia Criativa, e contou com a participação do Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES). No evento, mais de 300 pessoas de diferentes organizações da sociedade civil estiveram presentes. 

Entre os assuntos discutidos, o que mereceu maior destaque foi o Projeto de Lei  4685/2012 do deputado Paulo Teixeira (PT-SP)] em discussão na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que cria a Política Nacional de Economia Solidária e o Sistema Nacional de Economia Solidária. Em tramitação desde 2012, o PL já foi aprovado pelas comissões de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços; de Finanças e Tributação; e de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural.

A audiência pública também discutiu as grandes questões que hoje estão preocupando os fazedores da economia solidária, como por exemplo, a possibilidade de extinção da Secretaria Nacional de Economia Solidária, vinculada ao Ministério do Trabalho, e como isso pode prejudicar o andamento, a continuidade da avaliação dos projetos e a celebração de convênios dessas entidades em todo Brasil com o governo federal.

Outras demandas apresentadas pelos/as debatedores/as foram a aprovação de uma Lei Geral do Cooperativismo e a regulamentação da Lei da Agricultura Familiar (Lei 11.326/2006). A lei atual que regulamenta o funcionamento das cooperativas é de 1971 – do período mais violento da ditadura militar no Brasil, portanto. Outra cobrança feita pelos/as representantes das entidades presentes no debate foi a convocação de uma reunião do Conselho Nacional de Economia Solidária, responsável por articular as políticas do setor. João Bertolino assegurou que esta reunião será convocada em breve.

Fora Temer!

A audiência também foi palco de protestos contra o atual presidente do Brasil, Michel Temer. Como assumiu o governo a partir de uma decisão do parlamento, que caçou o mandato da Presidente Dilma Roussef, mesmo sem a configuração de crime de responsabilidade, o episódio tem gerado críticas e protestos em todo o Brasil. Os gritos de “Fora Temer” tomaram conta do auditório.

Os manifestantes também deram gritos de ordem se posicionando contrários à redução das políticas sociais. 

CPP

O incentivo a iniciativas de organização coletiva para melhorar as condições de vida dos pescadores é algo que está presente desde a fundação do CPP. Em 2015 foi dado mais um passo no fortalecimento da temática dentro da instituição com a criação do Grupo de Trabalho de Economia Solidária e com a contratação de uma assessoria especializada na temática. Desde então tem sido incentivado o levantamento de experiências de Economia Solidária em comunidades pesqueiras.

Além do levantamento, têm sido feitas sistematizações sobre as experiências que obtiveram melhores resultados para servirem de incentivo para outras comunidades.  


Texto elaborado pela Assessoria de Comunicação do CPP, a partir de informações dos sites da Câmara dos Deputados e da Cáritas Brasileira. 

MPP se reúne com o Subprocurador-Geral da República, Luciano Maia e apresenta denúncias sobre o seguro-defeso e o RGP

O MPP esteve na quarta-feira (28/09) com o Subprocurador-Geral da República e Coordenador da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão (populações indígenas e comunidades tradicionais) do Ministério Público Federal (MPF), Luciano Maia. Na ocasião os pescadores e pescadoras relataram os vários problemas que têm afligido e impedido essa população tradicional de exercer a profissão.

Foram feitos relatos sobre a quantidade de RGPs (Registro Geral da Pesca) cancelados, indeferidos ou suspensos. O documento que é obrigatório para todo pescador exercer a profissão não tem sido emitido para novos pescadores há mais de dois anos.  Em 2015, 279 mil RGPs foram cancelados, em 2016, 186 mil RGPs foram suspensos. Somados com os 200mil RGPs não entregues, são quase 600 mil pescadores que podem ser criminalizados por exercer a pesca sem documentação. 

Há relatos de pescadores no Espírito Santo e na Bahia com barcos e instrumentos de pesca apreendidos por estarem sem o RGP. O acesso a benefícios previdenciários como seguro-defeso ou auxílio-doença também está comprometido, já que é necessário ter o documento para ser beneficiado.

A situação se agrava ainda mais porque desde que o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) foi extinto em 2015 e as suas atribuições foram passadas para o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA), vários funcionários foram dispensados. Atualmente apenas 10 pessoas são responsáveis por emitir, para todo o Brasil, as carteiras de RGP. 

Os pescadores relataram também a dificuldade de acesso ao seguro-defeso mesmo para pescadores que tem o RGP regularizado. A burocratização para ter acesso ao benefício tem aumentado em vários estados. No estado do Ceará, por exemplo, passaram a exigir o Rol de equipagem, documento que identifica os tripulantes de uma embarcação e que até então não era exigido. 

Os problemas decorrentes dos decretos presidenciais 8424 e 8425, que ferem a identidade dos pescadores e pescadoras artesanais, foram apontados pelos trabalhadores da pesca ao Subprocurador, que criticou a postura do governo. “Eles não podem fazer isso, porque de acordo com a convenção 169 da OIT, os povos precisam ser consultados”, argumentou Luciano Maia. O Subprocurador se disse impactado pelo conjunto de informações dos relatos dos pescadores e pescadoras e prometeu colaborar. Como os decretos 8424 e 8425 estão em processo de revisão, o procurador se comprometeu a questionar a falta de participação e consulta aos pescadores e pescadoras.

Outra proposta que saiu da reunião foi a realização de uma audiência pública para discutir os mesmos decretos. 

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

“No rio e no Mar” é lançado hoje (26/09) na Internet

Documentário retrata a luta de pescadores e pescadoras de Ilha de Maré contra a poluição química causada pela Petrobras

“Eu tinha doze anos quando meu pai apresentou esse monstro pra gente”, fala Marizélia Lopes, pescadora de Ilha de Maré e uma das líderes do Movimento dos Pescadores e Pescadoras (MPP), apontando para a refinaria da Petrobras em Madre de Deus, na Baía de Todos os Santos. 

O episódio narrado é uma das cenas do documentário “No Rio e no Mar”, dos diretores holandeses Jan Willem Den Bok e Floor Koomen, que está sendo lançado no dia de hoje (26/09), na internet (acesse aqui). O documentário foi lançado em 2016 e concorreu em março, desse mesmo ano, na 18a edição do Festival de Cinema da Anistia Internacional, “Movies that matter”, na cidade de Haia, na Holanda. A obra cinematográfica não ganhou o prêmio principal, mas recebeu uma menção honrosa, ficando com o segundo lugar, entre os dez documentários que concorriam na categoria. 

As filmagens foram feitas nos anos de 2014 e 2015 e mostram o embate travado pelos pescadores e pescadoras de Ilha de Maré contra a Petrobras e outros empreendimentos petroquímicos que poluem a baía de Todos os Santos e prejudicam o modo de vida das comunidades pesqueiras locais.

O documentário acompanha as pescadoras e ativistas do MPP, Eliete Paraguaçu e Marizelia Lopes, ou “Nega”, como é conhecida, nas tentativas de denunciar os problemas que estão afligindo a comunidade. Entre as dificuldades para enfrentar a problemática da poluição, uma característica da sociedade brasileira se revela com força: o racismo ambiental. O conceito que começou a ser formulado nos anos 90, trata de políticas e práticas que prejudicam predominantemente grupos étnicos vulneráveis, como o que acontece com a comunidade quilombola pesqueira de Ilha de Maré.

No filme é possível ver também as graves consequências do acidente com o navio Golden Miller, na saúde dos pescadores. Em 17 de dezembro de 2013, o navio das Bahamas espalhou uma mancha de óleo pela Baía de Todos-os-Santos que chegou até a Ilha de Maré. Problemas de pele e altos índices de chumbo no organismo das crianças alertam para a gravidade da situação e são revelados pelo filme que aponta ainda a grande contradição existente entre o discurso oficial do governo brasileiro, que aponta orgulhosamente a Petrobras como a maior companhia do hemisfério sul, omitindo no entanto uma série de direitos que a mesma empresa viola.

"O documentário ajuda a gente a denunciar o quanto a baía de Aratu está degradada, aponta também as violações de direitos que acontecem, o impacto desses empreendimentos na nossa saúde e na vida da gente", denuncia Marizélia Lopes. "Esses empreendimentos fizeram com que Ilha de Maré deixasse de ser o paraíso que era", lamenta Marizélia.

Festival Movies That Matter
O festival Movies That Matter acontece anualmente na cidade holandesa de Haia e tem a Anistia Internacional como uma das realizadoras. Cerca de 25 mil pessoas participaram da 18a edição do festival, em março de 2016.

Além da exibição dos filmes, o festival promove também um diálogo entre os atores dos Direitos Humanos através de debates e encontros entre Organizações Não Governamentais.  Foram promovidos 10 encontros entre atores ligados à temática. O filme “No rio e no mar” foi exibido três vezes no festival e nos debates contou com a participação de Eliete Paraguaçu, uma das protagonistas do filme, e Marcos Brandão, advogado do Conselho Pastoral dos Pescadores da Bahia. 


Confira o documentário!